Thursday, April 19, 2007

UMA FORMA MARGINAL DE VIDA


Superficialmente, a ideia de ser padre veicula uma identiadde fraca, que não tem um poder mobilizador nem atraente, e que está sobrecarregada e saturada do que há de mais limitante na experiência religiosa. Ser padre tornou-se sinónimo de uma forma marginal de vida. (Paulo Renato, in “Jornal de Leiria”, de 12 de Abril de 2007).

Agradeço ao meu amigo Paulo Renato, não a perturbação que, certamente sem o ter querido, provocou em muitos dos seus leitores, mas o convite que encontrei nas saus palavras para, mais uma vez, ir ao fundo de mim mesmo, em busca das raízes da alegria que sinto pelo meu sacerdócio.
Ocorreu-me oferecer a algum visitante deste blogue um texto que tem quase vinte um anos: escrito, nas margens da ribeira que separa a Haute-Vienne do verdejante departamento da Corèze, no centro sul da França, enquanto celebrava, entre familiares e amigos, as bodas de prata sacerdotais, no meu caso, pelo menos, conserva toda a sua actualidade.
E atrevo-me a juntar-lhe um passo importante da primeira carta aos Coríntios.

Primeiro o texto de há vinte um anos:
«Misericordias Dimini in aeternum cantabo!»
A meio de tarde do Quinze de Agosto... quando a natureza, na faixa ocidental deste continente, começa a sugerir a chegada de uma nova estação.
A vista salta o vale da Combade até ao Monte Gargan, onde se divisam, apesar do decréscimo da luz neste fim de tarde, os sinais de uma fé que há muito se confundiu com as memórias do passado.
Um pouco para a esquerda, mas ainda mais longe, na linha do horizonte, a silhueta dos Monadières, já perto do Planalto das Mil Nascentes – Mil Vaches, em limousin... esta língua tão parecida com o português, do qual, aliás, é parente próxima.
Deixo as pessoas lá em baixo, no afã de matarem o tempo, cruzando os céus da memória, em viagens vertiginosas da fantasia, que dissimula as sombras do presente saltando do passado para o futuro e deste para aquele, aproveitando o cosmopolitismo de uma família que aprendeu o que raramente se consegue: assimilação e integração, sem perda da própria identidade.
A festa foi minha; mas sinto necessidade de afastar-me por algum tempo, não vá a exclusividade da alegria comum fazer-me perder o incomunicável, que é onde realmente o mais profundo de mim mesmo se encontra com o Único, que entende tudo, porque está na origem de tudo.

Misericordias Dimini in aeternum cantabo!
Gosto das evocações que produz no meu interior o latim do salmo, deste versículo, em concreto, que escolhi para as memórias da festa.

Hei-de cantar para sempre o amor do Senhor;
a todas as gerações anunciarei a sua fidelidade.
Proclamarei que o teu amor é para sempre,
e que a tua fidelidade é eterna como o céu.
(Salmo, 89, 2-3)
Ao cabo de vinte e cinco anos, a felicidade que sinto, a alegria que me invade, não tem outra raiz senão a lembrança do amor irreversível e consequentemente misericordioso de Deus.
É por isso que tal alegria e felicidade se tornam incomunicáveis... e para gozá-las de modo mais profundo, tenho de retirar-me: a vastidão do horizonte que se abre ao meu olhar, ajuda a penetração do espírito, a abertura do coração, onde posso ler, no abismo das misérias pessoais, o abismo misteriso das misericórdias divinas.

Hei-de cantar para sempre o amor do Senhor.
(Combe Boyer, 15 de Agosto de 1986)

Agora o texto de Sõ Paulo:
Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal humano. Nem eu me julgo a mim mesmo. (...) Pois, quem te faz superior aos outros? Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias, como se não o tivesses recebido? Já estais saciados! Já sois ricos! Sem nós, já vos tornastes reis! Oxalá o tivésseis conseguido, para que também nós pudéssemos reinar convosco. De facto, parece-me que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, no último lugar, como se fôssemos condenados à morte, porque nos tornámos espectáculo para o mundo, para os anjos e para os homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo! Nós somos fracos, e vós, fortes! Vós, honrados, e nós, desprezados! Até este momento, sofremos fome, sede e nudez, somos esbofeteados, andamos errantes, e cansamo-nos a trabalhar com as nossas próprias mãos. Amaldiçoados, abençoamos; perseguidos, aguentamos; caluniados, consolamos! Tornámo-nos, até ao presente, como o lixo do mundo e a escória do universo (1 Coríntios: 4, 3. 7-13).

3 Comments:

Blogger Paulo said...

Amor das margens.
É nas margens dos fluxos que tudo se redige. Por isso, sempre amei as margens. Aí, face à hemorragia do tempo, se reúne o sentido do não-tempo, o desejo de vinda, a aprendizagem da sede, da água, das mãos, nossas, cruzando-se entre a sede e água, nossas, comuns... enfim, tudo formas corpóreas de ser trabalhado pela verdade, matéria de quiasmos.
Creio que a compreensão depende da vontade e a vontade do afecto, tudo reciprocamente. Se as minhas palavras (fragmentadas e formatadas) provocaram agitação é porque algum hiato nómada rompeu a cadeia dos afectos compreendedores. Sei que os meus amigos adivinham claramente quais foram as outras palavras que disse e que não têm interesse jornalístico assim como sei que intuem claramente qual a pontuação e o timbre dos nexos. Abraço imenso!

4:09 PM  
Blogger Augusto Ascenso Pascoal said...

Ok, caríssimo Paulo.
Para dar uma resposta com a beleza formal da tua, falta-me o talento; mas não a amizade, que é a força e a luz que nos faz ir de margem a margem sem nos perdermos nas ciladas ecsondidas sob a torrente.
Um abração.
AP

9:02 AM  
Anonymous Imar Pascoal said...

Não quero "comentar", apenas dizer que também estive lá, que pude comungar desses momentos de alegria, alegria que é bom recordar, sobretudo nos momentos em que se torna difícil vislumbrar um raiozinho de sol, mesmo sabendo que ele está lá.
E tenho uma fotografia do "aniversariante" no momento exacto em que saía da pequena capela(?).
Um abraço, tio.
Ilda

7:05 AM  

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