Thursday, June 05, 2008

OITO ANOS ATRÁS


Ao invés das origens

Aqui vai mais uma página, esta muito recente, do meu diário.
Ofereço-a a todos os que há oito anos estiveram comigo na realização daquele sonho espantoso que foram as Jornadas Culturais 2000-2001.
Penso especialmente nas andanças provocadas pela ideia louca de lavar à cena O Processo de Jesus...
Aqui vai a página:
Arranquei o álbum do canto onde o guardava há muitos meses, talvez há anos.
Nanna Mouskouri faz-me sempre lembrar aquelas férias do Natal passadas nos arredores de Paris, vai para quarenta e oito anos: eu não tinha nada que fazer e via televisão, que era ainda a preto e branco e, mesmo na França, tinha só um canal.
Do que Nanna Mouskouri cantou então, e foi tudo particularmente fascinante, ficou-me apenas um título: L’Enfant au Tambour.
Depois houve outros concertos, outras audições... e hoje escuto enquanto vou subindo a serra, céu nublado, promessas de chuva, que, no, entanto, não cai.
E a voz de prata da cantora grega afasta-me para longe, no tempo e no espaço... tanto quanto o permite a estrada solitária, agora já no cimo da serra, com todos os perigos que encerram as pequenas estradas do interior, onde as pessoas imaginam que não há mais niguém no seu caminho.
L’Etranger, apesar de ser uma das primeiras canções do álbum, vem-me a cada momento à memória: Il est arrivé à l’hure où le soleil rougit... mais feminina, no conteúdo e no encanto da voz que a executa, que a congénere portuguesa, que me pareceu, a primeira vez que a ouvi na toada masculina das baladas combrãs, demasiado brejeira.
Depois vêm-me à mente outros problemas: como, por exemplo, o facto de a arte, ao invés do que aconteceu no início da evangelização da Europa, como que esvaziar a cultura da riqueza que lhe trouxe o Evangelho: diríamos que já não se inculura o Evangelho, mas, ao contrário, se desevangeliza a cultura.
Nem sempre, claro.
E o pensamento foge-me para a tal encenação de O Processo de Jesus:
Desejaria não acordar mais daquela tarde, no teatro José Lúcio da Silva, onde me foram proporcionadas as melhores interpretações que jamais vi dos personagens de Diego Fabri.
Foram todas de primeira categoria; mas permito-me salientar a prestação da Elsa – que será feito dela?-, já que o seu personagem tem muito a ver com o poema cantado por Nanna Moukouri.
Transcrevo do porgrama dessa tarde:
Dois mil anos depois, Jesus de Nazaré continua a ser um mistério que resiste aos discursos lógicos mais subtis e às emoções fáceis, de circunstância.
Só os pobres, os simples, os pecadores, aqueles que fazem a experiência da perda de todas as seguranças terrenas, só esses penetram nesse mistério.
Ao terminar a peça, ficamos com a impressão de que Diego Fabri nos quis dizer apenas que Jesus Cristo não se discute, aceita-se: como Pedro, João, e Tomé; como a Madalena, como a Ruiva, como a velhinha que, além de viúva, era pobre.

8 Comments:

Anonymous Elsa said...

Ah Saudade...

Boas! Que alegria tão grande poder recordar semelhante vivência. É que a brincar já lá vão 8 anos, e de facto existem momentos na nossa vida que nos influenciam para todo o sempre, quer pelas pessoas, quer pela magnitude do projecto em que nos envolvemos... Quero que o Sr. Padre Pascoal saiba, que para mim foi uma honra aprender e crescer ao seu lado e que marcou a minha vida, assim como todos os colegas que fizeram parte deste "Julgamento".

Se me permite, gostaria de lançar uma ideia... E que tal se nos juntássemos todos para recordamos esta vivência comum... E quem sabe, pensar em novos projectos?

Cumprimentos de todo o coração para si.

Obrigada por tudo.

Elsa Carvalho
(Maria Madalena dos nossos tempos!)

2:14 AM  
Blogger Augusto Ascenso Pascoal said...

Pois, querida Elsa... queridos todos. Não sei em que medida a vossa amizade exagera os efeitos do trabalho que fizemso em conjunto. Eu tenho saudades por tudo; também pela vossa juventude e porque foi um trabalho que estancou por muito tempo o meu envelhecimento psicológico... o físico não se pode estancar.
Esse encontro que sugeres seria para mim também um enorme conforto.
Pensem nisso e digam-me qualquer coisa.
Com todo o carinho
Augusto Pascoal

1:34 PM  
Blogger Alx said...

A partir de Agosto, se Deus quisere se tudo correr bem, estarei por Leiria. Poderei ajudar a tentar um ajuntamento de todos esses que participaram nessas jornadas.

Posso?

4:42 AM  
Blogger Augusto Ascenso Pascoal said...

Pois claro, meu caríssimo Alx.
Pelo que me toca, creio mesmo que serás uma peça indispensável. Podias até começar já a congraçar esforços nesse sentido.
Com muita amizade
AP

7:50 AM  
Anonymous Elsa said...

Vivas... Então vou tentar organizar este encontro que será tão querido por todos... Só pedia ao Sr Padre Pascoal para me enviar para o meu e-mail a lista de todos os participantes neste grandioso projecto.. O resto... Fica por minha conta...

O meu e-mail é:

elsa.bertilia@gmail.com

Saudades

Elsa

4:56 AM  
Blogger Augusto Ascenso Pascoal said...

Muito bem, querida Elsa. Tenho comigo a distribuição - como é que isto se salvou, meu Deus? - dos papéis na representação de 21 de Outubro de 2001.Vou enviar-te essa lista. Há, no entanto, outras pessoas que não estão nela,mas que certamente gostariam de tomar parte nesse encontro. Enviar-te-ei depois alguns nomes; penso, no entanto, que o Abílio pode dar uma boa colaboração nesse campo.
Saudades.
AP

4:01 PM  
Anonymous Anonymous said...

Que grande quantidade de comentários aqui vai...se for precisa alguma ajuda para ajudar nesse "ajuntamento",,disponham!!

Beijo Guida

2:50 AM  
Blogger Augusto Ascenso Pascoal said...

É evidente que precisamos de ti e da tua presença. Vê se contactas a Elsa, ou ela a ti etc e tal.-
AP

2:45 PM  

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